LIVE

No ano 2000 eu esperava dar meia-noite para navegar na internet. É que a partir desse horário o pulso da ligação era mais barato. Meu Deus… “navegar”, “pulso”, “ligação”… Das 14h de sábado até o final de domingo também era liberado. Era um único computador para a família inteira e, óbvio, eu me estapeava com a minha irmã para dividir os horários. Ai, ai… o barulhinho mágico da internet discada conectando…

Nessa época não era qualquer um que emitia opinião. Quer dizer, qualquer um emitia opinião, mas se você quisesse falar teria o trabalho de criar um blog, escolher o layout, divulgar pros amigos por e-mail… O mesmo acontecia no campo de comentários. Cada novo comentário era batalhado e comemorado. Afinal, se a pessoa tentou uns dez pulsos até conectar, abriu o Explorer, digitou o endereço do meu blog no Cadê, leu o texto, clicou no campo de comentários e preencheu os dados… Fala aí meu filho, você está autorizado a opinar, mesmo que seja para escrever merda.

E falavam muita merda dos blogs. Acusavam os blogueiros de serem pessoas fúteis que contavam sobre o seu dia em diários. Mal sabiam que a internet seria um grande blog dali vinte anos, né?

No início, a experiência era mais platônica. A gente se conhecia pelo jeito de escrever porque ninguém postava o rosto na rede. “Que perigo!”, diria minha mãe. Nudes pelo celular então… nem pensar. Quer dizer, quem tinha celular no ano 2000? O máximo era exercitar a imaginação nuns contos eróticos ou ir para o sub mundo do bate-papo do UOL. Aliás… entrávamos em salas aleatórias para bater-papo. (!)

Até então a gente se comunicava por e-mail. Aí veio a revolução do ICQ. Era tão legal, porque cada amigo que entrava era anunciado por uma batida na porta. Tá certo que no ICQ o nosso nick era um número. Capitalista, né? Mas eles compensavam com uma florzinha verde cada vez que um amigo ficava online. Romântico.

A pedra fundamental do Instagram foi um negócio chamado Fotolog. Mas olha só, não tinha essa de dezenas de filtros e câmeras de 20mp, não. Era a realidade nua e crua. A qualidade era ruim, mas pelo menos as pessoas não perdiam tanto tempo publicando fotos em espelhos de academia ou de elevador. É que para publicar uma foto não era automático; precisava descarregar a câmera. Aliás, nos anos 2000 a gente ainda revelava filme rezando para não ter queimado, tá bom? Me respeitem. Dava o maior trabalho… A única coisa que dá saudade é que nesse tempo a foto era consequência do momento e não o contrário.

Nos anos 2000 os coachs não infernizavam a nossa paz com lições de sucesso e autoajuda. A gente só tinha que aturar umas correntes por e-mail e as apresentações de power point com gatinhos. E até recebia cartão virtual no aniversário. Ah, e também não tinha essa de postar com a hashtag #gratidao, pois se você estava online e sua internet não caiu de madrugada, enquanto baixava música – já era motivo suficiente pra ser grato. E o jeito de mostrar que #somostodos alguma coisa era entrando em comunidades do tipo “Eu odeio acordar cedo” no Orkut.

Ah, Orkut… para participar, só recebendo convite. O nome era tão esquisito quanto à ideia de uma rede social. No orkut as pessoas diziam o quanto você era cool e sexy. Ninguém ficava paranoico com a quantidade de estrelinhas e o número de fãs. Ainda que você fosse feio e chato, sempre tinha um amigo pra te escrever uma declaração de amor por depoimento. Se você quisesse saber um pouco mais sobre a pessoa, lia o que os amigos escreviam sobre ela. E não o que nós escrevemos sobre nós mesmos.

É claro que as tretas sempre existiram. Recebíamos depoimentos precedidos pelo NÃO ACEITA!!! Ah, e quem nunca foi na casa de um amigo e disse a célebre frase “Posso ver se tem scrap?”

Novas discussões surgiram. O grande debate dessa época, inclusive, foi pauta do Fantástico: “Quantos amigos você tem na internet e quantos na vida real?”.

As flores do ICQ secaram. O MSN era mais descolado, mais adulto. E a gente ainda podia ficar invisível! O máximo de chateação era alguém vibrar a tela pedindo atenção. Pelo menos era mais honesto… pelo menos no MSN assumíamos a nossa carência. Hoje em dia, ela é embalada pelo visualizou e não respondeu no WhatsApp. Pela quantidade enorme de grupos inúteis que fazemos parte para fingir que não perdemos o contato com quem não temos afinidade.

A internet discada deu lugar ao wifi. E com a banda larga nasceu o Youtube. Agora publicar em blog já era antiquado. O anonimato também. Veio a primeira geração de vloggers botando a cara na internet, dando opinião e oferecendo conteúdo através do vídeo. As pessoas não criavam canais porque queriam ficar ricas ou famosas; elas encontraram, antes de tudo, uma nova forma de se expressar. Nessa fase, o que mais me irritava era ir à casa de algum amigo e ele dizer “Assiste esse vídeo!”. Nunca tinha impaciência. E nem achava graça.

Sabemos que o fim do Orkut envolve gifs animados e a decadência das comunidades. Mas quem ligava? Surgiu o Facebook!

Quem chegou no Facebook logo no início se encantou. As fotos de perfil ficavam lindas e a principal diferença é que ele incorporou, dentro da rede social, as características de um blog. Fomos incentivados a contar sobre o que estávamos pensando e a comentar nos posts uns dos outros. Aquela discussão “Quantos amigos nós temos no mundo real?” se acirrou. Quem não enfrentou o clássico dilema da pessoa que era amiga no Facebook, mas fingia que não te conhecia quando esbarrava na rua?

O Facebook estimulou cada vez mais a interação entre as pessoas, e de tanto analisar nosso comportamento, constatou o óbvio – somos um bando de carentes e egocêntricos. Daí o que o Mark fez? Decretou a nossa desgraça investindo nas curtidas. A partir daí, num ritmo alucinante, nos tornamos reféns da aprovação dos outros. O Instagram foi além: nele não temos amigos, temos SEGUIDORES.

Mas antes de entrar na fase The Walking Dead da internet, é imprescindível relembrar que na segunda metade dos anos 2000, um passarinho azul pousou na forma da gente se comunicar. Agora, a regra era se expressar em 140 caracteres. Foi uma revolução, principalmente no jornalismo: quer saber o que está acontecendo no mundo nesse instante? Vai no twitter!

Textos curtos e vídeos rápidos. Perdemos a paciência para tudo que exigisse um pouco mais de foco e atenção. Era o ambiente perfeito para nascerem as fake news dez anos depois.

Fico pensando… Se nos anos 2000 – enquanto eu socava meu computador porque a tela ficou rosa – alguém me dissesse que no futuro eu teria o meu notebook, um smartphone com wifi o dia todo, playlist no Spotify, nudes liberadas, artistas agindo como pessoas comuns em redes sociais, caraca… chega logo 2020, não aguento mais esperar!

Só que o futuro chegou e o que eu fiz? Entrei em depressão e deletei todas as redes sociais. Sumi da internet. E “sumir da internet” é praticamente deixar de existir, né? Simplesmente tinha desaprendido a me divertir no mundo virtual. Mesmo naquele perrengue todo da falta de tecnologia dos anos 2000, eu não tinha a sensação de viver no vazio. Quer dizer, eu não tinha a sensação de que todos eram tão felizes, menos eu.

Quando a internet se popularizou, muita gente dizia que estávamos trocando o mundo real pelo virtual. Hoje esse papo ficou para trás; a gente entende que a vida é uma coisa só. Também aprendemos a separar os amigos reais dos virtuais e está ótimo assim. A nossa discussão agora ~ sem mencionar as fakes news, porque aí o assunto vai pra outro patamar ~ é sobre a vida real x a vida idealizada.

Pensa comigo… viver é monótono. Em 90% do tempo nós repetimos as mesmas ações do dia interior. É quase como no teatro: todo dia é igual, mas nunca é igual, sacou? Essa é a mágica. Deve ser por isso que os dias felizes parecem incrivelmente felizes e os dias tristes dolorosamente tristes. São memoráveis porque fogem da rotina. Que bom é assim, que bom é ser normal. Comum. Entediante. Acontece que a internet se apropriou da parte ruim do jogo teatral.

“Viver no instagram” é como se todo dia fosse um dia inesquecível. Como se qualquer momento rendesse uma foto memorável. Pouco importa se antes da selfie você tirou outras quinze fotos. Se o sorriso era falso. Se a paisagem e a legenda eram apenas o pretexto para exibir a barriga trincada. Pouco importa se estamos enfrentando uma pandemia mundial com gente passando fome – tem uma galera postando storie dos recebidos.

A internet renega o fracasso – exceto quando ele se torna risível como num meme. A depressão nas redes sociais está offline. Para sobreviver nesse sistema – digo em termos populares – você acaba se tornando refém do jogo de aparências. Esgarçando ao máximo a sua intimidade para bater um milhão de inscritos no Youtube. Essa é a meta? Ter inscritos?

Na internet, a exceção é regra. Pois fazer sucesso é a exceção. Muita gente frustrada, encontrou no ódio a única forma de chamar atenção. E, não à toa, foi justamente nesse ambiente tóxico de comparações e desilusões que os coachs ganharam tanta força.

E não bastasse a busca insana pela vida perfeita, agora a moda é exigir que as pessoas também sejam perfeitas. Se o seu ídolo não é perfeito, ele é cancelado. E se você perdoa a imperfeição, você passou pano. Assim, simples. O engraçado é que nós costumamos elogiar roteiros que apresentam personagens complexos, personagens que não são 100% bons ou maus, mas quando nos deparamos com essa complexidade no mundo real, preferimos jantar a pessoa e depois cancelá-la. E tem muito influenciador digital por aí que percebeu que virar ícone de uma causa traz milhares de seguidores, por mais que aquela causa não seja a dele. Jamais esqueça que o seu like dá engajamento e dinheiro.

Os últimos anos não tem sido fáceis para quem sonha com um mundo melhor. É surreal imaginar que uma rede de informação como a internet seja utilizada pelo gabinete do ódio para, justamente, propagar a desinformação para as pessoas. Neste momento, na internet de 2020, nós flertamos diariamente com a tragédia e a esperança. Talvez por isso se tornou um ambiente tóxico, como costumam dizer. De fato, a internet é uma droga.

EU SEI… nessa minha historinha eu romantizei os fatos. No ano 2000 não existiam memes. Não dava para assistir TV lendo o twitter. Não dava para rir no Tiktok. Não tinha Netflix! Assim como também não era possível imaginar um movimento mundial contra o racismo nascer a partir de um vídeo gravado por uma adolescente. Aliás, se antigamente a internet era acusada de distanciar as pessoas, ela foi fundamental para manter o mundo mais próximo e em casa durante a quarentena. Ninguém aguenta mais live, mas obrigado a cada um que compartilhou conhecimento, arte e amor com outras pessoas.

E diante de tanta maldade desse governo, me sinto mais forte e muito orgulhoso em ver tanta gente incrível se expondo, justamente na internet, contra a sombra do fascismo. Seja no real ou no virtual, só muda o mundo quem não se esconde.

Pena não podermos nos abraçar ainda. E a minha live com vocês foi escrita. Como letras se abraçando para formar uma palavra. Como num blog. Como nos anos 2000. Comenta aí.

@felipebarenco

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22 Comments

  1. Pra mim é absurdo como você tem a capacidade de escrever tão bem, me fazer refletir e ir de encontro com diversos dilemas que já passei e passo diariamente. Tenho depressão e este ano caótico não está sendo fácil, mas decidi reler livros favoritos e FAKE está na lista. Assim como no livro você trouxe essa live com clareza, com uma pontada da verdade no peito, mas com esperança de que algo melhor virá. Um grande abraço e é bom saber que você está bem.

  2. Um misto de nostalgia com uma tempestade de reflexões mentais. Você conseguiu resumir nessa live escrita tudo o que passamos nesses últimos tempos – as coisas boas, as ruins, as boas E ruins, as contradições que sempre nos cercam.
    Obrigada e fique bem! <3

  3. Felipe do céu, que saudade. Tive que parar tudo o que tava fazendo só pra ler sobre você. E do que você queria falar. Rapaz… Senti uma nostalgia tão grande da época de Fake. Foi como receber notícias de um amigo de quem não sabia há anos. Espero que você esteja bem. Poxa, muita saudade mesmo. De tudo o que você trouxe pra minha vida. Até hoje obrigado! Um abraço

  4. Sábias palavras Felipe, nos faz parar e refletir bastante, principalmente na atualidade, onde além da Pandemia que todo o planeta vem enfrentando, estamos constantemente sujeitos a diversas consequências dos avanços tecnológicos, do acesso facilitado a internet. A medida que facilita o acesso inúmeros conteúdos, a comunicação entre pessoas e o acesso a uma grande gama de informações de forma instantânea, esse mesmo recurso, infelizmente, nos encurrala a um mundo de fantasias e manipulações…
    Espero que vc esteja bem,
    um grande abraço!

  5. Muito bom ter você novamente por perto.

    Saudades 🥰

  6. Que texto incrível! A narrativa de forma decrescente passa real o nosso sentimento em relação à trajetória da internet. No início, algo bem leve e nostálgico, mas no final essa coisa pesada e meio trágica. Por mais textos assim! Obrigado pelo ótimo momento de leitura do dia, Felipe.

  7. Melhor resumo de tudo que tem acontecido nesses últimos anos, nostálgico lembrar de cada detalhe desses acontecimentos também passei por essas fases ou maior parte delas e sinto exatamente a mesma coisa. Obrigado por essa live esperamos por mais <3

  8. Amei a live e como ela conseguiu resumir todo que esta acontecendo. Sua forma de escrever nos prende a cada palavra e traz reflexões importantes em nossa mente. Ansioso por mais.

  9. Texto incrível. Nos coloca em perspectiva. Por mais textos como esse. Senti minha mente, alma e esperança refrescados.

  10. Amo sua forma de contar histórias! Fico feliz pelo destino ter colocado Fake na vida da minha amiga e por ela ter insistido pra eu ajudar no projeto do Catarse. Gostei demais do livro e sempre que posso indico pra pessoas que eu sei que gostariam também <3

  11. Meu queridooooo !! Saudades de vc!! Seu texto impecavel .. passeamos nas nossas vivencias destes tempos..Nao some!! me liga !! Se cuida e Fique bem!!

  12. Que retrospectiva gostosa de ler! Revivi meu encontro com todos esses canais. E falando em encontro, lembrei de como te encontrei! Na peça “Meu caro amigo” Aqui em Recife! Linda! Maravilhosa! Inesquecível para mim e para os caros amigos que me acompanharam! Obrigada por seus escritos. Beijos!

  13. Abracei as palavras com gratidão, ótimo texto e reflexão, que sejamos fortes neste momento de crise. ❤

  14. A única e mais bem feita live que tive o prazer de acompanhar. Com maestria descreveu em palavras muitos dos meus próprios pensamentos/sentimentos, posso apenas agradecer por isso.

  15. Que maravilha poder te ler mais uma vez!
    Saudade de tu e saudade da acidez da Vó. ❤

  16. Em quase 24 anos de vida, que bom que “por acaso” encontrei esse texto. Eu precisava, e foi incrível.

  17. Que honra ter lido esse texto. Na verdade, é sempre uma delícia ler suas palavras. São perfeitas doses de sentimentos no desenrolar de cada linha. Obrigado por compartilhar a sua arte para trazer parênteses de paz nesse momento turbulento.

  18. Engraçado que tenho 26 anos hoje e não vivi nada disso. Nunca tive Orkut nem MSN, fui ter Facebook depois de um tempão, logo depois Instagram… Hoje desativei minhas contas e resolvi me afastar de tudo, já me sinto sozinha na vida real e as redes sociais só piora meu caso.
    Pra pra ter redes sociais hoje em dia a pessoa tem que ter uma vida muito boa, caso contrário só vai ter mentiras em suas contas, a minha vida não é essa maravilha toda, e eu não quero ser a que mente em estar bem, eu não estou bem, e já faz um tempo.
    Espero que o mundo melhore, que as pessoas melhorem, e cada um encontre seu lugar de paz.

    Espero que esteja bem Felipe, eu amei seu livro e guardo ele com muito carinho, comprei também um livro com seu autógrafo para garota que eu era apaixonada a dois anos atrás, e que sou apaixonada até hoje. (Pena que não é recíproco)
    Você e seu livro fazem parte dessa nostalgia toda pra mim. Obrigada por isso.

    Você é recebido com muito carinho por muitas pessoas, saiba que muita gente se importa com você, e quer te ver bem sempre.

  19. Parcerinho to aqui exercitando a escrita de um comentário e envolta na áurea nostálgica que é o seu texto . Mas não é nostalgia bocó de um mundo que era melhor, olhando sempre para o passado, é nostálgico pq me aciona por outros sentidos. Que bom que vc tem um blog, é uma resistência massa. Me traz sensações outras, essa leitura. Me obrigada a não ter pressa, me faz parar no sábado. Tá massa! Fica por aí um tempo pfv, antes que a internet de encha o saco novamente e vc se retire em mais uma saída de autor discreto, com o subtexto:” aff que gente uó online. Vou fazer minhas coisinhas e depois volto”. Bjs

  20. Que delícia de texto. Obrigada por essa escrita carinhosa e acolhedora. gratidão ( haha)

  21. Este texto é quase uma homenagem a minha geração hahaha.
    Me senti representado de tantas formas em cada sessão publicada, e todas elas, claro, trouxeram uma nostalgia enorme.
    Obrigado pelas leituras incríveis.
    Vem mais livros por ai? Diz que sim! 🙂

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