Por que escrevi Fake?

O hábito da leitura me acompanha desde a infância. Nessa época, meu pai trabalhava na Editora Vozes e trazia livros para eu brincar de ler e colorir. (Olha eu aí posando para o catálogo da Vozes haha) Uma das lembranças mais felizes dessa época era aguardar o domingo e torcer para que ele retornasse da banca de jornal com algum gibi da Disney ou Turma da Mônica.

Os livros também me acompanharam na adolescência e eu frequentava bastante a biblioteca da escola. Acontece que nessa fase eu estava descobrindo/entendendo a minha sexualidade e, junto com ela, também descobri que não havia naquela biblioteca histórias ou personagens retratando aqueles meus conflitos.

Lembrem-se de que tô falando dos anos 90 e não havia a internet e redes sociais para encontrar outros garotos como eu. E o mais próximo da “literatura gay” tinha um forte apelo erótico. Resultado: acreditei que eu era o único gay existente no planeta e que nasci com algum sério defeito de fábrica. Ser gay era um segredo a ser guardado.

Claro que o Brasil ainda precisa avançar muito, mas a diversidade sexual está cada vez mais presente em livros, séries, filmes, no debate político e, principalmente, nas redes sociais. A internet traz cada vez mais visibilidade e discussão ao assunto. Descobrimos, inclusive, que gay é apenas mais uma letrinha na imensa bandeira da diversidade lgbtqa+.

Ao mesmo tempo, a liberdade da internet e das redes sociais também dá a falsa sensação de que se assumir hoje em dia é fácil para qualquer um. E percebo o tanto de jovens e até mesmo adultos que são assumidos para os amigos, mas que se escondem dentro de casa. Os amigos sabem, a família não.

Essa parada de “ter que se assumir” é um tanto ridícula quando pensamos friamente no assunto, afinal, ninguém que é hétero reúne a família e anuncia “Oi, galera, sou hétero”. Também não entrava na minha cabeça como o amor dos nossos pais podia ser abalado por tanto preconceito.

Num futuro bem próximo, quando nós formos avós, acredito que o dilema de se assumir terá sido superado! Mas e até lá? Existe uma galerinha bem-resolvida nas redes sociais que defende o discurso do “Não me rotule” para não se assumir. E aí você, que tá em conflito com esse assunto, se sente antiquado ou até mesmo envergonhado.

Particularmente, não tenho nada contra os rótulos. Podemos enxergá-los como algo limitante (e sim, eles são), mas o limite também é muito libertador e nos oferece um horizonte, um ponto de partida. Trabalhar na televisão me deu a perspectiva de enxergar a pluralidade de realidades no Brasil e um jovem do Leblon se assumindo gay é bem diferente do rapaz negro do subúrbio ou de uma garota de família evangélica no Piauí.

Seja como for, não é fácil pra ninguém. E nós sabemos como dói enfrentarmos o fantasma da rejeição dentro de casa, assim como também sabemos como nos tornamos mais fortes ou pelo menos mais seguros quando contamos com o apoio da nossa família.

Então eu cresci, me profissionalizei e decidi escrever aquele livro que eu gostaria de ter lido na adolescência. Um livro que fosse um ombro amigo, um abraço, um conforto. Um livro que pudesse contribuir um pouquinho para que ninguém se sinta completamente sozinho com seus conflitos.

Foi partindo dessa abordagem sobre a sexualidade – sobre o se assumir para a família – que eu construí a jornada do Téo, o protagonista de Fake. Ele ainda não se assumiu para os pais e esconder que é gay é um conflito que o consome. Ao mesmo tempo em que ele enxerga a liberdade lá fora, ele vive numa bolha de preconceito dentro de casa.

Ele está prestes a completar 20 anos e a proximidade do aniversário torna esse conflito urgente na cabeça dele. Está cansado de fingir, de se esconder. Ele se compara ao irmão caçula, hétero, e percebe todos os privilégios de quem segue os “padrões”.

No desenrolar de Fake o Téo vai se apaixonar. E impulsionado por essa paixão, ele encontrará a força para enfrentar seus medos. Mas o amor no mundo real não é tão perfeito como nas comédias românticas e logo o Téo será envolvido por um romance intenso e complexo como são os relacionamentos do mundo adulto. É quando a trama sofre uma grande virada e aí… só lendo! Hahaha.

Foi um desafio escrever um livro que abordasse temas tão delicados e que não ficasse pesado/depressivo. Por isso, o Téo é um narrador irônico, reflexivo e bem-humorado. Por amor, ele é trouxa e faz merda. Assim como todos nós.

A trajetória de Fake

Fake foi lançado de forma independente em 2014. Eu tinha urgência para abordar essa história (naquele ano ainda não tínhamos tantas publicações nacionais do gênero) e eu simplesmente não queria esperar que alguma editora dissesse se eu poderia ou não publicá-lo.

As vendas de Fake, como acontece até hoje, são apenas pela internet. Enviei alguns exemplares para os booktubers que eu acompanha e admiro (Klébio Damas, Alison Andrade, Luan Felipe, Fabíola Paschoal, Johny Felipe, Eduardo Carone) e a recepção foi maravilhosa. Graças a eles – e sou eternamente grato por todo apoio – os leitores descobriram a existência do livro. Vieram inúmeras resenhas em blogs, avaliações positivas no Skoob e a primeira tiragem esgotou.

Em 2018, por conta dos inúmeros pedidos, decidi lançar uma campanha no Catarse para viabilizar uma nova edição. A campanha foi incrível e batemos a meta com direito ao selinho “Projetos que amamos” da plataforma.

Sou muito grato a vocês e realizado com trajetória de uma publicação independente. Em breve, Fake alcançará sua terceira tiragem! Lindo, né? Obrigado!

Torço para que você seja feliz com a leitura. <3