O blog do livro

Histórias de fantasmas sempre me causaram uma espécie de fascínio e medo. Acho que todo mundo conhece algum lugar na sua cidade com fama de mal-assombrado e já pensou em visitá-lo como a galerinha do Scooby Doo (aliás, minha principal referência nesse trabalho).

Doiscincomeia é baseado no meu blog Edifício 256, lançado em 2003. Na época, eu tinha mudado para o Rio de Janeiro para cursar a faculdade e como era quebrado de grana, aluguei vaga num apartamento bizarro em Copacabana. Dividia o espaço com mais cinco caras (eram dois quartos e quatro beliches) e o prédio, sujo e caindo aos pedaços, era habitado por moradores peculiares. Cada vez que eu pegava o elevador, esbarrava com a “velhinha do terceiro andar”, “a prostituta do décimo”, “o traficante do quinto” e por aí vai.

Até que eu descobri que alguns edifícios no mundo não possuem o andar 13 por superstição. Pulam direto do 12 para 14 pois acreditam que o décimo-terceiro dá azar.

Também em 2003 a internet vivia o boom dos blogs – correspondente ao fenômeno TikTok nos dias de hoje. Todo mundo tinha ou queria ter um blog. E quem não queria ter, criticava os blogueiros. Aliás, até hoje o termo “blogueirinha” é pejorativo, né?

A maioria dos blogs funcionava como diário pessoal e eu enxerguei ali uma oportunidade de exercitar o meu lado escritor pela primeira vez – assim, publicar e outras pessoas lerem, sacou? Meu blog, como já mencionei, foi batizado “Edifício 256” – em referência ao número do prédio que eu morava – e a proposta inicial era que a cada dia eu postasse como um morador diferente. Era um blog ficcional.

Acontece que somando 2+5+6 o resultado é 13. E assim surgiu a premissa que ligava todos aqueles personagens do blog: um edifício que tinha fama de ser mal-assombrado no décimo terceiro andar.

E ao invés de fazer posts isolados de cada personagem, eu decidi publicá-lo como uma novelinha. Todo dia um capítulo diferente escrito em forma de roteiro. A história? Os moradores do prédio investigando a existência do tal fantasma enquanto rolava o maior romance entre os dois protagonistas, a prostituta Pâmela e o nerd Caio Pinto. Foram 80 capítulos publicados de segunda à sexta, de julho a dezembro de 2003.

Para minha surpresa, o Edifício 256 bombou e recebeu destaque no principal portal da época, o Blogger da Globo.com.

O Edifício 256 foi o primeiro trabalho que me deu autoconfiança como escritor. Com toda a repercussão, eu descobri que era capaz de mobilizar os leitores com as histórias que eu criava.

Em 2009, eu relancei o Edifício 256 numa versão atualizada e mais uma vez a repercussão foi incrível. Até virou piloto de série para a MTV com patrocínio da Rio Filme, em 2012.

O livro do blog

Após a publicação de Fake, decidi realizar um sonho antigo: lançar o Edifício 256 como livro. Mas na hora de fazer a adaptação literária, eu praticamente escrevi tudo de novo. Imaginem, quando foi lançado em 2003, eu ainda era estudante e não tinha experiência alguma como escritor profissional. Deu um trabalho danado, mas foi maravilhoso revisitar a história e reescrevê-la. Quem sabe ainda veremos o edifício como filme ou série? É outro sonho!